Alice
A tentação de adjectivar um filme destes é grande. Escolho palavras como genial, sublime, arrasador, mas tudo me soa redutor numa experiência como esta.
Duas pessoas paradas no tempo, atónitas com o desaparecimento da filha, sem saber o que aconteceu. A mãe, Luísa, encharcada em comprimidos, o pai, Mário, numa busca incessante, louca, repetida ao minuto numa rotina diária, procurando nas milhares de almas penadas que por ele passam, todos, todos os dias, reencontrar um rosto, uns caracóis e um casaquinho azul.
E o espectador é levado nesta procura ficando desgastado, mais triste, menos vivo, à medida que as pessoas passam em vão, quando já não restam forças para continuar a procurar, quando se deseja enfim que o ponteiro dos segundos se liberte do seu engasgo e prossiga na contagem do tempo, deixando para o passado um presente tão doloroso.
Nuno Lopes e Beatriz Batarda são espantosos. Está para além do meu entendendimento como é possível alguém representar de forma tão verdadeira, tão intensa e verosímil o sofrimento humano. O olhar do Mário, carregado de tristeza, de angústia, transportando e contagiando-nos com o sofrimento da perda, paralisado pela incerteza. O choro desesperado da Luísa, na esquadra, quando o inspector cruel e friamente lhes diz que é habitual os desaparecimentos se resolverem em dois dias, bem longe dos quase duzentos que eles já passaram.
A música de Bernardo Sassetti é eficaz na caracterização minimal repetitiva/dramática.
E Marco Martins, realizador e argumentista, na sua estreia em longa-metragem, dando-nos uma Lisboa chuvosa, feia, desumanizada pelos prédios suburbanos, pelos carros que rasgam o asfalto, pelos mortos-vivos que, indiferentes, se cruzam connosco na sua rotina diária, inútil, desprovida.
Um filme deprimente, brutal, mas absolutamente imperdível.
2 Comments:
És um ser fascinante LuaNova. Acredito que o filme também seja... mas tu és mais.
Nem imaginas quanto...
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